Dia Internacional da Conscientização da Perda Gestacional e Neonatal: um convite ao acolhimento e à escuta
No dia 15 de outubro, o mundo se une para lembrar o Dia Internacional da Conscientização da Perda Gestacional e Neonatal. Nessa data, olhamos com respeito e sensibilidade para todas as famílias que viveram a dor do aborto espontâneo, do natimorto ou da perda de um bebê ainda nos primeiros dias ou meses de vida. É um dia para acolher, educar, quebrar o silêncio e afirmar, com delicadeza, que essa dor é real e merece ser reconhecida.
Ainda que, muitas vezes, a sociedade trate esse tema como tabu, a perda de um filho antes ou logo após o nascimento é uma experiência profunda, marcada por luto, perguntas sem resposta e, não raramente, pela solidão. Especialmente para a mãe, que vivencia cada etapa da gestação em seu próprio corpo, o impacto emocional pode ser devastador. Mas essa dor não é invisível, nem deve ser vivida em silêncio.
Um mês de consciência e memória
Em 1988, o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, proclamou outubro como o mês nacional de conscientização sobre gravidez e perda infantil, tornando-se um dos primeiros líderes políticos a reconhecer publicamente o luto dessas famílias. Em uma de suas falas mais marcantes sobre o tema, ele destacou a dificuldade de nomear a dor dos pais que perdem seus filhos:
“Quando uma criança perde um dos pais, ela é chamada de órfã. Quando um cônjuge perde o companheiro, fica viúvo. Quando os pais perdem os filhos, não há palavras para descrevê-los… simplesmente que ainda são pais.”
A frase traduz um sentimento compartilhado por muitas mães e pais: a identidade de pai e mãe permanece, mesmo quando o filho não pode ser criado nos braços. Nesse contexto, datas como 15 de outubro não são apenas simbólicas — elas ajudam a abrir espaço para o diálogo, a memória e o cuidado emocional.
Uma realidade mais frequente do que se imagina
Embora pouco se fale sobre isso, a perda gestacional e neonatal é mais comum do que parece. As estimativas apontam que, a cada quatro mulheres, uma vivencia a perda do filho na gravidez, no parto, no período neonatal ou já em casa. Em nível global, quase dois milhões de bebês nascem mortos todos os anos — o equivalente a um natimorto a cada 16 segundos, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas e parceiros.
Esses dados fazem parte de levantamentos realizados em parceria por instituições como Unicef, Organização Mundial da Saúde (OMS), Banco Mundial e Divisão de População da ONU, que alertam para a necessidade de olhar com mais seriedade para a saúde materna e infantil, bem como para o apoio emocional a essas famílias.
No Brasil, especialistas estimam que o aborto espontâneo atinja cerca de 15% a 20% das gestações até a 22ª semana. Atrás desses números, existem histórias de expectativas, planos, enxovais iniciados, nomes escolhidos — e um luto que muitas vezes não encontra espaço seguro para ser expresso.
O silêncio que fere: por que ainda é um tabu?
Apesar de ser uma experiência tão frequente, a perda gestacional e neonatal ainda é envolta em silêncio. Muitos pais escutam frases que, embora bem-intencionadas, acabam machucando ainda mais, como “você é jovem, pode tentar de novo” ou “ainda bem que aconteceu no começo”. Comentários assim invalidam o vínculo já existente com aquele bebê e a dor sentida pela família.
O tabu também impede que os pais busquem ajuda. Muitas mães sentem culpa, vergonha ou medo de serem incompreendidas, e acabam vivendo o luto de forma isolada. Romper esse silêncio é fundamental para que elas possam reconhecer seus sentimentos, compartilhar sua história e receber o apoio de que precisam.
Acolhimento e apoio emocional fazem diferença
Em momentos de perda, o acolhimento sincero pode ser um divisor de águas. Ouvir sem julgamentos, permitir que a mãe e o pai falem sobre o bebê pelo nome, reconhecer a existência dessa vida e validar o luto são gestos que ajudam a reconstruir o chão. O apoio pode vir da família, de amigos, de profissionais de saúde mental, de grupos de apoio e de instituições especializadas.
É importante lembrar que não há um “tempo certo” para superar essa dor. Cada pessoa vive o luto de maneira singular. Algumas mães se sentem prontas para tentar uma nova gestação em pouco tempo; outras precisam de um período maior para elaborar suas emoções. Em todos os casos, o respeito ao ritmo de cada um é essencial.
Trombofilia e perda gestacional: o papel do IBT
Entre as diversas causas possíveis de perda gestacional, estão as trombofilias — condições que aumentam o risco de formação de coágulos sanguíneos e podem comprometer a circulação na placenta. Nem toda perda gestacional está relacionada à trombofilia, mas, quando ela está presente, um diagnóstico seguro e um acompanhamento adequado podem fazer grande diferença na condução das gestações futuras.
A missão do IBT é justamente apoiar pessoas que convivem com a trombofilia, inclusive em contextos gestacionais, oferecendo informação de qualidade, orientação e acolhimento. Por meio da conscientização sobre os riscos, da defesa por protocolos de investigação adequados e do fortalecimento da rede de apoio, buscamos contribuir para que menos famílias precisem enfrentar uma perda tão dolorosa sem respostas ou suporte.
Ao falar sobre perda gestacional e neonatal, também reforçamos a importância de que mulheres com histórico de trombofilia ou de perdas repetidas sejam ouvidas com seriedade, acolhidas por equipes multiprofissionais e tenham acesso a acompanhamento especializado.
Como podemos apoiar quem está em luto?
Se você conhece alguém que passou por uma perda gestacional ou neonatal, alguns gestos simples podem fazer muita diferença:
- Escutar com atenção, sem tentar minimizar a dor ou encontrar explicações rápidas.
- Evitar frases prontas e consolos que invalidam o sentimento de perda.
- Oferecer ajuda prática no dia a dia, respeitando os limites e o espaço da família.
- Perguntar como a pessoa se sente e se ela deseja falar sobre o bebê ou sobre o que aconteceu.
- Incentivar a busca por apoio psicológico ou grupos de apoio, quando isso fizer sentido para ela.
Como sociedade, podemos contribuir para quebrar o tabu ao falar com respeito sobre o tema, exigir mais políticas públicas de suporte às famílias enlutadas e reconhecer que o luto pela perda de um bebê é um luto legítimo.
15 de outubro: lembrar, acolher e transformar
O Dia Internacional da Conscientização da Perda Gestacional e Neonatal é uma oportunidade de iluminar uma dor que, muitas vezes, permanece na escuridão. Ao lembrar dos bebês que se foram tão cedo, também olhamos com carinho para as mães, pais e famílias que carregam essa lembrança todos os dias.
Que essa data nos inspire a oferecer mãos estendidas, ouvidos atentos e informação segura. Que possamos construir uma rede de apoio em que nenhuma mulher, nenhum homem e nenhuma família precise atravessar esse caminho sozinha. E que o reconhecimento da dor também abra espaço para a esperança, para o cuidado e para novas histórias de vida.
Fonte: Jornal Fatos e Notícias

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